sábado, 12 de maio de 2012

O recado do morro, mais um texto de apoio


- O RECADO DO MORRO –

Paulo Rónai nos alerta sobre a importância de se observar que Corpo de Baile é uma obra sui generis. Segundo o crítico, Guimarães Rosa desafia seus leitores lançando-os em vez de “num caminho reto, num verdadeiro labirinto; e, se lhes dá algumas chaves (...) deixa-os procurar as fechaduras a que elas se aplicam. E mesmo que êles tenham compreendido a unidade essencial do conjunto e a importância igual das diversas partes, mesmo que tenham percebido a razão de ser do título e a presença permanente de símbolos poéticos nessas narrativas telúricas, ainda terão de resolver inúmeros enigmas que se lhes armam a cada passo.” (RÓNAI, 1958, p.141) Como os grandes poemas clássicos, Corpo de Baile “está cheio de segredos que só gradualmente se revelam ao olhar atento. A própria unidade da obra é um dêles. Ela não é apenas geográfica e estilística (...). Conexões de temática,  correspondências estruturais, efeitos de justaposição e oposição integram-na, mas os leitores têm de os descobrir um a um.”(RÓNAI, 1958, p.142)  - “SOBRE A SOMBRA DA GAMELEIRA”

O recado do morro fala da terra, do Morro das Garças que, imóvel, acompanha a viagem de ida e de volta de um grupo de viajantes/ dançarinos/ planetas guiados pelo enxadeiro Pedro Orósio. Este grupo passa por sete fazendas, e acontecimentos que nelas se dão nos remetem à simbologia astrológica, através dos seus nomes/códigos. (DANIELA SEVERO)                http://www.mafua.ufsc.br/danielasevero.html


No início do conto, nos é apresentado que este [conto] é

um caso de vida e de morte, extraordinariamente comum, que se armou com o enxadeiro Pedro Orósio (também acudindo por Pedrão Chãbergo ou Pê-Boi, de alcunha), e teve aparente princípio e fim, num julho-agosto, nos fundos do município onde ele residia (ROSA, 2007 – pg. 5).
   
                Aqui entramos em contato com o nome e alcunhas da personagem em torno da qual girará o enredo. As formas como é chamado possuem significado importante à trama, pois todas fazem referência à sólida rocha e, portanto, à Terra: Pedro – pedra; Orósio oros (palavra portuguesa que herda o significado “montanha” do grego; além do mais, em espanhol, oros significa “ouro”) e ósio – significa “escolhido” (segundo MACHADO, 1976); Chãbergo – Chã+berg, chã como chão, pela sonoridade (segundo Nilse Sant’Anna Martins, em seu “ O Léxico de Guimarães Rosa”, o autor utiliza a palavra “Chã” como planície, terreno plano)e Berg, “montanha” ou “rocha” em alemão;  Pê-boi: Pê – pé, pela sonoridade; Boi – além da força e do tamanho, uma referência ao Signo de Touro, que possui uma percepção profunda da matéria, experimentando-a com os pés postos no chão. Além disso, as mensagens enviadas pelo morro são um tanto ruminadas antes de o recado do morro ser entendido pela personagem.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
                Esta relação entre Pedro Orósio e a terra é importante, pois uma possibilidade de leitura muito pertinente e constatada pela fortuna crítica do conto é a de que as sete fazendas/fazendeiros visitadas/os durante a viajem fazem referência aos sete planetas da antiguidade clássica:

“Aos quais, sol a sol e val a val, mapeados por modos e caminhos tortuosos, nas principais tinham sido, rol: a do Jove, entre o Ribeirão Maquiné e o Rio das Pedras - fazenda com espaço de casarão e sobrefartura: a dona Vininha, aprazível, ao pé da Serra do Boiadeiro - aí Pedro Orósio principiou namoro com uma rapariga de muito quilate, por seus escolhidos olhos e sua fina alvura; o Nhô Hermes, à beira do córrego da capivara - onde acharam compra de cinqüenta novilhos curraleiros; a Nhá Selena, na ponta da Serra de Santa Rita - onde teve uma festinha e frei Sinfrão disse duas missas, confessou mais de dúzia de pessoas: o Marciano, na fralda da Serra do Repartimento, seu contraforte de mais cabo, mediando na cabeceira do Córrego da Onça para a do Córrego do Medo - lá o Pedro Orósio quase teve de aceitar ajuizada briga com um campeiro morro-vermelhano; e, assaz, passado o São Francisco, o Apolinário na vertente do Formoso - ali já eram os campos - gerais, dentro do Sol “(ROSA, 2001a, p. 53).


Na linguagem astrológica, Júpiter (Jove) está associado à expansão, à graça, à fé e à confiança; Vênus (Vininha) está associada ao recebimento de afetos, à partilha, ao prazer, à socialização, ao amor e ao namoro; Mercúrio (Nhô Hermes) está associado à comunicação, à inteligência, aos negócios e ao movimento; a Lua (Nhá Selena) se relaciona com o inconsciente, com as emoções e com os cultos; Marte (Marciano) se associa à ação, à energia física, à agressividade e ao impulso auto-afirmativo; o Sol (Apolinário = Apolo) é relacionado à vitalidade, ao senso de individualidade, aos valores essenciais e ao otimismo; e, por fim, Saturno (Seo Juca Saturnino) está associado à reserva, à severidade, às responsabilidades e ao trabalho. "Ainda na véspera, na Fazenda do Saco - dos -Cochos, de Seo Saturnino, onde tinham falhado, aparecera o Maral, primo do Ivo, os dois resumiram muita conversa apartada. O Maral, outro que mal escondia o ferrão·(...)"  (http://www.mafua.ufsc.br/danielasevero.html)

                Em seguida, temos a descrição das personagens que compõem o grupo que viaja: Pedro Orósio, descalço, moço, forte, erguido (quase gigante), muito forte; depois, três patrões, “de limpo aspecto”: Seo Alquiste, (nome cunhado do alemão e que, nesta língua, faz aparente menção aos ramos do Olmo, relacionando o personagem à sua condição de naturalista) que representa, para Machado (1976), a percepção aguda e a objetividade da câmera.  É quem observa, anota, cataloga, capta o mundo através dos sentidos. Frei Sinfrão, frade que rezava muito e era, como Seo Olquiste, nascido em outro país “falava sotaqueado a língua da gente”, sendo intérprete e tradutor da personagem alemã. Representa, na narrativa, o pensamento que venera o desconhecido, o invisível que está fora da área dos sentidos e que é recebido como revelação. Para Machado (1976), o nome de Frei Sinfrão lembra sinfronismo (O sinfronismo ocorre entre o homem de uma época e os de todas as épocas, quando sua espiritualidade e modo de vida apresentam semelhanças que os identificam) indicando que é através de uma concordância da razão, de uma reunião ou convergência do pensamento ou do próprio espírito que os diversos elementos vão se estruturar, apelando para a sensibilidade básica do homem através dos tempos, independente da cronologia. Além de Pedro Orósio, junto com eles vai Ivo Crônico, cujo nome nos remete ao tempo: "E esse Ivo era um sujeito de muita opinião, que teimava de cumprir tudo o que dava anúncio de um dia fazer. Por isso, o apelido dele, que tinha, era: Crônico - (do qual não gostava)". Segundo Victoria (2000), o nome Crônico remete a Cronos- deus do tempo- conhecido também como Saturno.
Os três juntos, Alquiste, Sinfrão e Jujuca, são os homens pensantes. Eles representam, segundo Machado (1976), o lado Direito/racional da narrativa.  Assim, temos uma imagem dos representantes da ordem na narrativa; o corpo que guia (Pedro Orósio) e o pensamento/alma (Alquiste, Sinfrão, Jujuca) humano que viaja no tempo (Ivo). Nessa viagem de vida e de morte/transformação anunciada pelo morro, Pedro Orósio se dirige ao passado, à infância e ao país de origem. Além disso, Pedro se dirige para o futuro que o levará para o seu destino, para as transformações que ele lhe reserva. 

sexta-feira, 27 de abril de 2012


O recado do morro (Conto de Corpo de Baile), de Guimarães Rosa

( fonte: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/o_recado_do_morro_conto)

BAIXE o conto na íntegra: http://www.4shared.com/office/B2_72VaP/o_recaDO_do_morro.html?
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O recado do morro é um dos sete contos que compõe o volumeCorpo de Baile, de Guimarães Rosa. Trata-se de uma espécie de alegoria da formação do Brasil. É uma narrativa mais longa, quase uma novela, que descreve uma viagem de ida e volta pelo sertão, partindo de uma região central de Minas em direção ao norte até o Rio São Francisco, quando indica o ciclo do retorno. Caminham em tropa um naturalista estrangeiro, um religioso e um letrado - ilustrações dos desbravadores do país. À frente deles, dois homens do interior mineiro, conhecedores da região e do sertão, servem como guias. A trama irá opor os dois homens simples, por meio de uma emboscada de morte, que trará àquele espaço uma nova configuração. 

A história ilustra o mundo sem lei. No sertão, vigora a regra, e não a lei - a regra da aliança e da vingança. Para o autor, estão em jogo ali novamente os destinos da civilização e da cidadania brasileira.

O recado do morro, os personagens-viajantes se deslocam pelo interior de Minas e por vários campos do saber, ao mesmo tempo em que recontam e decifram antigas estórias, relatos da loucura e mitos anônimos. Nesse conto, uma rede de narradores é estabelecida para passar adiante uma estória que, ao final, ainda é a mesma embora já seja outra. O recado do morro, ouvido por Gorgulho, é contado para seu irmão Catraz, que o reconta para o jovem Joãozezim, que o narra para Guégue, o guia que se orienta por referências móveis.

A partir daí, o recado vira boato e pode ser ouvido no discurso apocalíptico de Nômini Dômini, nos números inscritos pelo Coletor na parede da igreja, ou na letra cantada ao violão por Laudelim, até que se torna compreendido por seu destinatário, o guia Pedro Orósio, que sempre ouvira as diversas variações da mesma história sem atinar para o fato de que isso era um aviso de sua própria morte. Constituído pelas relações cooperativas e desarmônicas entre saber e não-saber - entre aquele que sabe e aquele que não sabe, entre o que cada personagem sabe e as formas como o sabe e o compartilha -, o conto opera com formas e temas não-excludentes, que podem ser verificados pelos freqüentes processos de tradução capazes de dar sustentação a uma poderosa estrutura fractal e em rede.

Apropriando-se de saberes das áreas de Matemática, Medicina, Biologia, Lingüística e da tecnologia de seu tempo, o conto também recorre aos diferentes saberes do sertanejo, construindo um incessante processo tradutório entre esses diversos campos. Os saberes acadêmicos, artísticos, religiosos, populares, e também os não-saberes, presentes em todas essas instâncias, são articulados numa rede discursiva que é a própria literatura de ficção.

Retomando variadas tradições discursivas – literárias e extraliterárias – o conto lhes permite uma cooperação desarmônica, criando a tensão narrativa que preside todo texto ficcional.

O conto realiza uma inter-relação entre os relatos dos habitantes do lugar e a estória dos que habitam a obra do autor. Parte deste conto se passa em Buritizeiro, na vertente do Formoso.

As descrições da paisagem, do lugar, das veredas, dos chapadões e do povo sertanejo se fundem com a memória dos habitantes do lugar: Neste conto um pequeno grupo de viajantes estrangeiros via a cavalo pelo sertão para fins de investigação. Os dois guias do país, os vaqueiros Pedro e Ivo, são inimigos ferozes. Pedro é um Casanova campesino, que já roubou a muitos colegas as boas graças das suas moças. Presságios sinistros acompanham a expedição. No seu trajeto encontra um velho alienado, que pretende ter ouvido uma mensagem do monte próximo. O velho já não consegue lembrar-se do conteúdo da mensagem, apenas recorda, que falava de um rei. Pedro não dá ouvido ao palavreado do velho, mas a enigmática mensagem vai dando que falar no sertão e os viajantes ouvem-na com freqüência, em fragmentos confusos. O pressentimento inarticulado de um ato de violência vai aumentando, quando Ivo, no fim da viagem, convida o seu odiado rival para uma festa de reconciliação. Na noite da festa os investigadores e seus companheiros reúnem-se numa pequena taberna, um dos convivas recita uma balada popular, a história do jovem rei, que na viagem de peregrinação a Belém é atacado e assassinado pelos próprios vassalos. Torna-se clara então a mensagem do monte. Ivo e seus cúmplices arrastam o Pedro embriagado, e ficamos a saber que não se trata de reconciliação, mas de um ato de vingança traiçoeiro. Mas eis que esta expectativa é repentinamente contrariada: sussurrando os versos da balada, Pedro de relance compreende a intenção dos seus companheiros, atira-se a eles e consegue pô-los em fuga. Nessa novela, o Morrão torna-se “belo como uma palavra” e porta-voz de um recado para a personagem principal, Pedro Orósio, guia de uma comitiva que parte de Pirapora para Cordisburgo. 

À medida que a comitiva avança sertão adentro, o recado vai sendo passado de boca em boca a personagens excêntricos: bobos, loucos, lunáticos, fanáticos religiosos e um menino, até chegar aos ouvidos do músico Laudelim, que transforma a mensagem numa canção. Traduzido para a música, o recado é então compreendido por Pedro Orósio, a tempo de receber o aviso do Morro sobre as intenções de seus falsos amigos.

O morro da Garça, em Minas Gerais, assume papel de destaque no conto, ao enviar mensagem de morte à personagem principal do conto, captada por um visionário sertanejo e afinal percebida a tempo por tal personagem.

Com a poesia que lhe é peculiar, Guimarães Rosa transformou o Morro da Garça, a paisagem sertaneja, as estórias e os costumes do povo do sertão em obra de arte, fazendo do espaço físico, cenário para seus personagens, lugares imaginados, “mais ou menos como a gente vive”. O conto retrata o desdobramento de uma história, contada e recontada sete vezes. No conto o vaqueiro Pedro Orósio faz uma viagem pelo sertão e alguns de seus companheiros preparam uma cilada para matá-lo. Ele só escapa porque o morro lhe manda uma mensagem construída ao longo de uma semana (de sete etapas). Pedro com pedra, Orósio como oros (montanha), também conhecido como Pê-boi, pé na terra. Da terra recebe o recado. Durante a viagem, percorreu as fazendas de Apolinário, Nhá Selena, Marciano, Nhô Hermes, Jove, Dona Vininha e Juca Saturnino. Em companhia dos Vaqueiros Helio Dias Nemes, João Lualino, Martinho, Zé Azougue, Jovelino, Veneriano e Ivo Crônico. Assim enfilerados, dá pra perceber o que no texto vem diluído: a alusão aos dias da semana (tais como são nomeados em outras línguas) e aos deuses aos quais são dedicados: Apolo / Sol; Selene / Lua; Marte, Mercúrio / Hermes; Júpter, Vênus, Saturno / Cronos. O que acontece em cada fazenda tem a ver com cada deus dominante (beleza, festa, guerra, comércio / mensagem, poder e fartura, amor, tempo). Mas a terra escapa. O recado é decifrado por Pedrão Chãbergo (chão e berg, rocha em alemão). 
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