- O RECADO DO MORRO –
Paulo Rónai nos alerta sobre a importância de se observar que Corpo de
Baile é uma obra sui generis. Segundo o crítico, Guimarães Rosa desafia seus
leitores lançando-os em vez de “num caminho reto, num verdadeiro labirinto; e,
se lhes dá algumas chaves (...) deixa-os procurar as fechaduras a que elas se
aplicam. E mesmo que êles tenham compreendido a unidade essencial do conjunto e
a importância igual das diversas partes, mesmo que tenham percebido a razão de
ser do título e a presença permanente de símbolos poéticos nessas narrativas
telúricas, ainda terão de resolver inúmeros enigmas que se lhes armam a cada
passo.” (RÓNAI, 1958, p.141) Como os grandes poemas clássicos, Corpo de Baile
“está cheio de segredos que só gradualmente se revelam ao olhar atento. A
própria unidade da obra é um dêles. Ela não é apenas geográfica e estilística
(...). Conexões de temática,
correspondências estruturais, efeitos de justaposição e oposição
integram-na, mas os leitores têm de os descobrir um a um.”(RÓNAI, 1958,
p.142) - “SOBRE A SOMBRA DA GAMELEIRA”
O recado do morro fala da terra, do Morro das Garças que, imóvel,
acompanha a viagem de ida e de volta de um grupo de viajantes/ dançarinos/
planetas guiados pelo enxadeiro Pedro Orósio. Este grupo passa por sete
fazendas, e acontecimentos que nelas se dão nos remetem à simbologia
astrológica, através dos seus nomes/códigos. (DANIELA SEVERO) http://www.mafua.ufsc.br/danielasevero.html
No início do conto, nos é
apresentado que este [conto] é
um caso de vida e de morte,
extraordinariamente comum, que se armou com o enxadeiro Pedro Orósio (também
acudindo por Pedrão Chãbergo ou Pê-Boi, de alcunha), e teve aparente princípio
e fim, num julho-agosto, nos fundos do município onde ele residia (ROSA, 2007 –
pg. 5).
Aqui
entramos em contato com o nome e alcunhas da personagem em torno da qual girará
o enredo. As formas como é chamado possuem significado importante à trama, pois
todas fazem referência à sólida rocha e, portanto, à Terra: Pedro – pedra; Orósio – oros (palavra
portuguesa que herda o significado “montanha” do grego; além do mais, em
espanhol, oros significa “ouro”) e ósio
– significa “escolhido” (segundo MACHADO, 1976); Chãbergo – Chã+berg, chã como chão, pela sonoridade (segundo Nilse
Sant’Anna Martins, em seu “ O Léxico de Guimarães Rosa”, o autor utiliza a
palavra “Chã” como planície, terreno plano)e Berg, “montanha” ou “rocha” em
alemão; Pê-boi: Pê – pé, pela sonoridade; Boi – além da força e do tamanho,
uma referência ao Signo de Touro, que possui uma percepção profunda da matéria,
experimentando-a com os pés postos no chão. Além disso, as mensagens enviadas
pelo morro são um tanto ruminadas
antes de o recado do morro ser entendido pela personagem.
Esta
relação entre Pedro Orósio e a terra é importante, pois uma possibilidade de
leitura muito pertinente e constatada pela fortuna crítica do conto é a de que
as sete fazendas/fazendeiros visitadas/os durante a viajem fazem referência aos
sete planetas da antiguidade clássica:
“Aos quais, sol a sol e val a
val, mapeados por modos e caminhos tortuosos, nas principais tinham sido, rol:
a do Jove, entre o Ribeirão Maquiné e o Rio das Pedras - fazenda com espaço de
casarão e sobrefartura: a dona Vininha, aprazível, ao pé da Serra do Boiadeiro
- aí Pedro Orósio principiou namoro com uma rapariga de muito quilate, por seus
escolhidos olhos e sua fina alvura; o Nhô Hermes, à beira do córrego da
capivara - onde acharam compra de cinqüenta novilhos curraleiros; a Nhá Selena,
na ponta da Serra de Santa Rita - onde teve uma festinha e frei Sinfrão disse
duas missas, confessou mais de dúzia de pessoas: o Marciano, na fralda da Serra
do Repartimento, seu contraforte de mais cabo, mediando na cabeceira do Córrego
da Onça para a do Córrego do Medo - lá o Pedro Orósio quase teve de aceitar
ajuizada briga com um campeiro morro-vermelhano; e, assaz, passado o São
Francisco, o Apolinário na vertente do Formoso - ali já eram os campos -
gerais, dentro do Sol “(ROSA, 2001a, p. 53).
Na linguagem astrológica,
Júpiter (Jove) está associado à expansão, à graça, à fé e à confiança; Vênus
(Vininha) está associada ao recebimento de afetos, à partilha, ao prazer, à
socialização, ao amor e ao namoro; Mercúrio (Nhô Hermes) está associado à
comunicação, à inteligência, aos negócios e ao movimento; a Lua (Nhá Selena) se
relaciona com o inconsciente, com as emoções e com os cultos; Marte (Marciano)
se associa à ação, à energia física, à agressividade e ao impulso
auto-afirmativo; o Sol (Apolinário = Apolo) é relacionado à vitalidade, ao senso
de individualidade, aos valores essenciais e ao otimismo; e, por fim, Saturno
(Seo Juca Saturnino) está associado à reserva, à severidade, às
responsabilidades e ao trabalho. "Ainda na véspera, na Fazenda do Saco -
dos -Cochos, de Seo Saturnino, onde tinham falhado, aparecera o Maral, primo do
Ivo, os dois resumiram muita conversa apartada. O Maral, outro que mal escondia
o ferrão·(...)" (http://www.mafua.ufsc.br/danielasevero.html)
Em seguida, temos a descrição
das personagens que compõem o grupo que viaja: Pedro Orósio, descalço, moço,
forte, erguido (quase gigante), muito forte; depois, três patrões, “de limpo
aspecto”: Seo Alquiste, (nome
cunhado do alemão e que, nesta língua, faz aparente menção aos ramos do Olmo,
relacionando o personagem à sua condição de naturalista) que representa, para
Machado (1976), a percepção aguda e a objetividade da câmera. É quem observa, anota, cataloga, capta o
mundo através dos sentidos. Frei Sinfrão,
frade que rezava muito e era, como Seo Olquiste, nascido em outro país “falava
sotaqueado a língua da gente”, sendo intérprete e tradutor da personagem alemã.
Representa, na narrativa, o pensamento que venera o desconhecido, o invisível
que está fora da área dos sentidos e que é recebido como revelação. Para
Machado (1976), o nome de Frei Sinfrão lembra sinfronismo (O sinfronismo ocorre
entre o homem de uma época e os de todas as épocas, quando sua espiritualidade
e modo de vida apresentam semelhanças que os identificam) indicando que é
através de uma concordância da razão, de uma reunião ou convergência do
pensamento ou do próprio espírito que os diversos elementos vão se estruturar,
apelando para a sensibilidade básica do homem através dos tempos, independente
da cronologia. Além de Pedro Orósio, junto com eles vai Ivo Crônico, cujo nome nos remete ao tempo: "E esse Ivo era um
sujeito de muita opinião, que teimava de cumprir tudo o que dava anúncio de um
dia fazer. Por isso, o apelido dele, que tinha, era: Crônico - (do qual não
gostava)". Segundo Victoria (2000), o nome Crônico remete a Cronos- deus
do tempo- conhecido também como Saturno.
Os três juntos, Alquiste, Sinfrão e Jujuca, são os homens
pensantes. Eles representam, segundo Machado (1976), o lado Direito/racional da
narrativa. Assim, temos uma imagem dos
representantes da ordem na narrativa; o corpo que guia (Pedro Orósio) e o
pensamento/alma (Alquiste, Sinfrão, Jujuca) humano que viaja no tempo (Ivo).
Nessa viagem de vida e de morte/transformação anunciada pelo morro, Pedro
Orósio se dirige ao passado, à infância e ao país de origem. Além disso, Pedro
se dirige para o futuro que o levará para o seu destino, para as transformações
que ele lhe reserva.