terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"Poemas" e "Senhor Branco ou o Indesejado das gentes"


“POEMAS”  -   MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO nasceu em Lisboa no dia 19 de maio de 1890. Os primeiros anos de sua vida são marcados pela dor causada pela morte da mãe, em 1892, quando ele tinha apenas dois anos. Em 1911 matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, no ano seguinte, transfere-se para Universidade de Paris para dar continuidade ao curso de Direito, que não conseguiu concluir. Ainda em 1912 publica a peça teatral "Amizade" e o volume de novelas "Princípio". Nessa época, começa a corresponder-se com Fernando Pessoa. Nessa correspondência já é refletido o agravamento dos seus problemas emocionais e as ideias de morte e suicídio. Em 1914, além de publicar as obras "Dispersão" e "A confissão de Lúcio", Sá Carneiro intensifica sua correspondência com Fernando Pessoa, a quem envia seus poemas e projetos de obras, revelando crescentes sinais de pessimismo e desespero. Em 1915, como integrante do grupo modernista em Portugal, participa do lançamento da revista "Orpheu". No segundo volume dessa revista publica o poema futurista "Manucure", que, ao lado do poema "Ode triunfal" de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa), provocam impacto e polêmicas nos meios literários. Ainda em 1915 regressa à Paris, onde passa por constantes crises de depressões, que são agravadas por causa das suas dificuldades financeiras. Em 1916, numa carta a Fernando Pessoa, anuncia a sua intenção de suicídio, o que efetivamente ocorre no dia 26 de Abril, num quarto do Hotel Nice, em Paris. A obra de Mário Sá-Carneiro está intimamente relacionada a sua vivência pessoal, ou seja, revela toda a sua inadaptação ao mundo e a constante busca do seu próprio eu. Isso faz com que o poeta mergulhe no seu mundo interior e, diferente de Fernando Pessoa, que se desdobrou em heterônimos, atinja a autodestruição.
Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro revela influências de várias correntes literárias, como o decadentismo, o simbolismo, ou o saudosismo, então em franco declínio; posteriormente, por influência de Pessoa, viria a aderir a correntes de vanguarda, como o interseccionismo, o paulismo ou o futurismo. Nessas pôde exprimir com vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela um certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu «eu» no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.
O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais (era órfão de mãe desde a mais terna puerícia), levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge o retrato de um inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesi de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.
Embora não se afaste da metrificação tradicional (redondilhas, decassílabos, alexandrinos), torna-se singular a sua escrita pelos seus ataques à gramática, e pelos jogos de palavras. Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, numa segunda, claramente niilista, a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.
Por fim, as cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o seu suicídio, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescimento das suas frustrações interiores.
Poemas: Editado por Fernando Cabral Martins, o conjunto de poemas de que faz parte este livro corresponde à voz adulta do poeta, ou seja, as obras escritas após 1911.




O termo decadentismo descreve uma sensibilidade estética que ocorre no fim do século XIX e se contrapõe ao realismo e ao naturalismo. Sua origem refere-se mais diretamente ao modo pejorativo como é designado um grupo de jovens intelectuais franceses que compartilham uma visão pessimista do mundo, acompanhada de uma inclinação estética marcada pelo subjetivismo, pela descoberta do universo inconsciente e pelo gosto das dimensões misteriosas da existência. Os versos do poeta Paul Verlaine indicam como o grupo incorpora positivamente o termo, dando a ele conotação diferente da original: "Je suis l'empire à la fin de la décadence" ["Sou o império no fim da decadência"]. Os escritores e poetas simbolistas dos anos 1880 e 1890 são considerados os primeiros expoentes do decadentismo. O simbolismo, corrente de timbre espiritualista, encontra expressão nas mais variadas artes, pensadas em estreita relação de umas com as outras.
saudosismo Valorização demasiada do passado. Movimento literário essencialmente poético, desenvolvido em Portugal no primeiro quartel do séc. XX. Seu mentor foi Teixeira de Pascoais, segundo o qual a saudade constitui o traço definidor da alma portuguesa
interseccionismo Movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa e que se caracteriza pela interseção no poema de vários níveis simultâneos de realidade: a interior e a exterior, a objetiva e a subjetiva, o sonho e a realidade, o presente e o passado, o eu e o outro, etc. Poema paradigmático desta estética, Chuva Oblíqua exemplifica esta técnica de intercalamento que permite "o desdobramento possível de imagens vindas do exterior ou da nossa consciência, de proveniência visual ou auditiva, de experiências reais ou de sonho, etc., criando-se no poema [...] registos ou séries imagísticas objetivamente diferentes mas devidamente ordenados"
paulismo O paulismo é um estilo literário criado por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro com o Impressões de Crepúsculo que começa com a palavra "Pauis"; sinónimo de pântanos. Este movimento literário prima por ambientes sombrios e de águas escuras e "paradas", nas quais o poeta "não se encontra". Os locais que o poeta descreve estão normalmente associados a ambientes aquáticos.
Futurismo: Os adeptos do movimento rejeitavam o moralismo e o passado, e suas obras baseavam-se fortemente na velocidade e nos desenvolvimentos tecnológicos do final do século XIX. Os primeiros futuristas europeus também exaltavam a guerra e a violência. O Futurismo desenvolveu-se em todas as artes e influenciou diversos artistas que depois fundaram outros movimentos modernistas.

SENHOR BRANCO OU O INDESEJAO DAS GENTES
Paulo Roberto Sodré: Seu último livro, De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas, foi lançado em 1998. 1998; O Senhor Branco ou O Indesejado das Gentes é o seu sexto livro. É professor efetivo do departamento de Letras da Ufes.
O 'eu lírico' dos poemas de Sodré não está voltado para a vida, nem absorto na vida, nem confiante na vida, como os homens do café do poema de Manuel Bandeira (Momento num café). Foram os versos desse poema inclusive que semearam O Senhor Branco... no escritor. "Isso foi mais ou menos em 94. Mas eu só mergulhei mesmo no livro em 2004", diz.
Parênteses: Manuel Bandeira passou a vida inteira acompanhado pela tuberculose. Isto é, a idéia da morte era uma companheira inseparável. Daí o valor e a importância da poesia do recifense para Paul Roberto.
“Nestes páramos de sílabas, darei a ti um rosto, sim, de homem, pois se uma mulher deu-me o que se fez vida, é de sorte que um homem ma recolha.”

Esta apresentação do livro de poesia Senhor branco ou o
indesejado das gentes, de Paulo Roberto Sodré, começa com a
leitura de um de seus versos: “Nenhum texto declara norte ou figo na constelação que o verso investiga.” Ele adverte que não há como um texto esclarecer as referências e frutos de um verso poético; a poesia é uma constelação que não cabe no alinhavo de um texto. Isso porque, de modo geral, o texto pretende, com a certeza de sua análise, investigar o assunto na luz meridiana, sem sombras, da razão. Entretanto se, oposto à claridade da certeza, o que é próprio da poesia é o mistério de sua imensidão, como é possível ler versos com tanta luz?

Ao contrário da pretensão à certeza, um texto que se propõe
a interpretar poesia deve, tal como o verso, investigar a
constelação que se recusa ser observada no meio-dia de um
esclarecimento e, entregue a vastidão dessa investigação,
compreender o que, por sua própria natureza, se oculta. Com tal advertência, abnegamos de, nesta apresentação, esclarecer este livro de poesia. Ao contrário de declarar o norte ou o figo dessa constelação poética, este nosso texto de abertura propõe indícios, apenas acena para o que, por se ocultar, deve ser entrevisto desnorteadamente.

Advertência feita, passamos então ao título do livro: Senhor
branco ou o indesejado das gentes. Imediatamente, salta aos olhos uma ressonância poética com Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Uma filiação, cepa ou estirpe poética?! Sim. Pois, além da consoante concepção da morte como a indesejada das gentes, encontramos neste livro tanto o trabalho formal de um João Cabral, quanto a revelação informal de um Manuel Bandeira; ressoam em seus versos tanto a lira desse como a anti-lira daquele.

Como afirma a promessa do primeiro poema, o livro propõe,
“nestes páramos de sílabas”, dar à morte um rosto; e tal tarefa é confirmada como cumprida no último poema: “Nestas paragens de poemas, dei-te um rosto de homem”. Antes de considerar porque aqui a morte tem um rosto de homem, podemos observar que, em sua estrutura formal, o livro começa com o poema Nestes páramose termina com o Nestas paragens, afirmando e confirmando ser o seu propósito dar um rosto à morte. Páramo é topo, o planalto deserto da abóbada celeste, o ponto mais alto, mais afastado, enorme. Para Paulo Sodré, páramos são as sílabas de suas poesias.Paragens são os lugares de repouso das grandes navegações, aonde o mar encontra praia, porto, parada para descansar. Aqui, as paragens são poemas escritos com páramos, poesias que dão rosto à morte.

Distinto tanto da morte que é mulher ou anjo em Manuel
Bandeira, quanto da morte que é lâmina ou cama em João Cabral, aqui a morte tem um rosto de homem, ela é o senhor branco, belo e castanho, com cabelos cacheados: o morte! Por que? – simples: “pois se uma mulher deu-me o que se fez vida, é de sorte que um homem ma recolha”. Com o propósito de dar rosto ao senhor branco, o livro de Paulo Sodré descreve a morte como um percurso de sombra, que começa com o frescor, passa como um arrepio e acaba com o corte – momentos que constituem respectivamente as
três partes do livro: No frescor da sombra, tudo são questões, dúvidas, pressentimentos e especulações. O fascínio e o medo unidos edificam simultaneamente o totem e o tabu. Morte!? Termo que determina, baile de foices; um átimo que, retirando o nome, separa a voz do silêncio; recesso de silêncio, senhorio de ausência, domínio de esquecimento. A primeira parte do livro, intitulada Percurso de sombra e frescor, apresenta o senhor branco. Com o frio de seu frescor, a sombra arrepia: após todas as dúvidas, a constatação da morte. Não importa como vem, seja por atropelamento, tiro, veneno ou derrame, a morte é sempre certa, está na espreita, por trás da curva, à espera do chão. E quando ela se aproxima, tudo desfalece em reticências. A morte revela a incompletude do que somos, o nosso inacabamento e imperfeição. Nada, ninguém, nenhum; quieto, vazio, vencido – a morte é o não que perfaz a finitude da vida. A segunda parte do livro, intitulada Percurso de sombra e arrepio, faz a constatação de ser o senhor
branco uma partida que abandona tudo como estava.

Por fim, o corte. A confirmação de que a morte irrompe,
rompe e interrompe; de que ela é a ruptura da vida que, deixando tudo na mesma inevitável reticência, revela que somos, no fim, perda. O senhor branco mostra a ausência, o itinerário de nossas vidas vazado, esvaziado em não. Após o frescor e o arrepio da sombra vem o hálito do esquecimento, o corte do aperto de mão com a morte, seu paternal abraço. Tudo se finda nessa concessão inevitável do nada, poeira ou pólvora para fátuo fogo. Neste percurso de sombra, que atravessa o frescor, o arrepio e o corte, a morte ganha um rosto, a face do senhor branco.

Ao fim de cada um desses três momentos, um contraponto;
cada parte do livro é, portanto, composta de um ponto e um
contraponto. Criado na composição polifônica da música medieval, o contraponto consiste em estabelecer um paralelo entre duas linhas melódicas simultâneas que se encontram nos contrastes e dissonâncias. Na poesia de Paulo Sodré, como contraponto à morte, o amor, ou melhor, o erotismo:

Como contraponto ao Percurso de sombra e frescor, Da
abreviatura do não também questiona a finitude, sendo que o
primeiro, a da morte e, o segundo, a do amor. Amor e morte se
confundem num erotismo cheio de dúvidas, ciladas e vacilos.
Solidão, relação, casamento, concessão, união, separação. O
discernimento do sim e do não se obscurece na sombra do talvez, ficando tudo confuso. Bastava dizer que sim, mas disse não antes do tempo. Na primeira parte do livro, como contraponto ao questionamento da morte, encontramos a dúvida do amor.

Na segunda parte, uma caligrafia dos cabelos contrapõe-se
ao arrepio da morte. Em Sob o grifo dos cabelos, o que era arrepio se esvoaça numa orquestra de alaúdes, um madrigal de
Monteverdi. Encontramos cachos de cabelos castanhos espalhados pelos versos, tristeza e doce melancolia. Uma escrita emaranhada e evasiva, cheia de silêncios e saudades.

Na terceira parte, ao Percurso de sombra e corte contrapõe-
se da cor do caqui e do azul, numa explícita referência ao disco
Araçá azul de Caetano Velozo. Embora a frase central, tanto do
disco quanto desse terceiro contraponto, seja “com fé em Deus, eu não vou morrer tão cedo”, há aqui um titubear entre a esperança e a desilusão, que podemos caracterizar como uma espera do desespero. Como contraponto à revelação do corte da morte, da inevitável reticência de nossa vida, o verso marca, desata e vara o desejo, o sonho-segredo do araçá azul, o nome mais belo do medo.

Com fé em Deus não morrerei antes de sentir os dedos de suas
mãos sem anéis, o cheiro dos cachos morenos de seus cabelos.
Mas, ao fim destas canções, como contraposto ao ineludível senhor branco, o indesejado das gentes, a confissão do cansaço em aguardar os passos daquele que nenhuma probabilidade, faça sol, faça noite, faça nuvem, deixara chegar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Romanceiro da Inconfidência

Romanceiro da Inconfidência - resumo e análise da obra de Cecília Meireles



Inspirada por uma visita a Ouro Preto, Cecília Meireles compôs esse poema de temática social, que evoca a luta pela liberdade no Brasil do século XVIII e incorpora elementos dramáticos, épicos e líricos.
Fruto de longa pesquisa histórica, Romanceiro da Inconfidência é, para muitos, a principal obra de Cecília Meireles. Nesse livro, por meio de uma hábil síntese entre o dramático, o épico e o lírico, há um retrato da sociedade de Minas Gerais do século XVIII, principalmente dos personagens envolvidos na Inconfidência Mineira, abortada pela traição de Joaquim Silvério dos Reis, o que culminou na execução de Tiradentes. 

 GÊNERO ROMANCEIRO 
O gênero romanceiro é uma coleção de poesias ou canções de caráter popular. De tradição ibérica, surgiu na Idade Média e é, em geral, uma narrativa com um tema central. Cada parte tem o nome de romance – que não deve ser confundido com a denominação do atual gênero em prosa.
Nessa obra de Cecília Meireles, há 85 romances, além de outros poemas, como os que retratam os cenários.

CONTEXTO HISTÓRICO
Romanceiro da Inconfidência caracteriza- se como uma obra lírica, de reflexão, mas com um contexto épico, narrativo, firmemente calcado na história. Em 1789, inspirados pelas idéias iluministas européias e pela independência dos Estados Unidos, alguns homens tentam organizar um movimento para libertar a colônia brasileira de sua metrópole portuguesa.
Uma pesada carga tributária sobre o ouro extraído das Minas Gerais deixava os que viviam dessa renda cada vez mais descontentes. Assim, donos de minas, profissionais liberais – entre os quais alguns poetas árcades – e outros começaram a conspirar contra Portugal. Contudo, o movimento é delatado e os envolvidos, presos. Alguns são condenados ao exílio, e o único a ser executado, na forca, é Tiradentes, em 21 de abril de 1792.

GÊNESE EM OURO PRETO
Nessa obra, Cecília Meireles utiliza-se, pela primeira vez, da temática social, de interesse histórico e nacional, enfatizando a luta pela liberdade. Sem aprofundadas reflexões filosóficas, mas com muita sensibilidade, a autora dá uma visão mais humana dos protagonistas daquele que foi o primeiro grande movimento de emancipação do Brasil: a Inconfidência Mineira.
Como se trata de um fato histórico, e dos mais importantes, a autora tem o cuidado de não se limitar a relatá-lo em versos, mas procura recriá-lo por meio da imaginação.
A gênese da obra ocorreu, de acordo com depoimento da escritora, quando foi pela primeira vez à cidade de Ouro Preto (ex-Vila Rica), local onde se organizou o movimento de Tiradentes e seus companheiros.
Cecília afirmou: “Todo o presente emudeceu, como platéia humilde, e os antigos atores tomaram suas posições no palco. Vim com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores; (...) na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas (...). Era, na verdade, a última Semana Santa dos inconfidentes: a do ano de 1789”.

ROMANCES
Tematicamente, pode-se localizar a ambientação da narrativa nos primeiros 19 romances. A descoberta do ouro, o início de uma nova configuração social com a chegada dos mineradores e toda a estrutura formada para atendê-los, os costumes, os “causos”, como o da donzela morta por uma punhalada desferida pelo próprio pai (Romance IV), ou os cantos dos negros nas catas (VII), o folclore, a história do contratador João Fernandes e de sua amante Chica da Silva e o alerta sobre a traição do Conde de Valadares (XIII a XIX). A ênfase recai na cobiça do ouro, que torna as pessoas inescrupulosas.
Vila Rica é o “país das Arcádias”, numa alusão direta ao neoclassicismo brasileiro, com seus principais poetas e suas pastoras: Glauceste Satúrnio e Nise, Dirceu e Marília. No belo Romance XXI, as primeiras idéias de liberdade começam a circular.
A partir do Romance XXIV, a insatisfação, a revolta contra a corte portuguesa é explicitada com a confecção de uma bandeira (Libertas quae sera tamen). Do XXVII ao XLVII, há a atuação do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que procurava atrair mais gente para a conspiração, em longas cavalgadas pela estrada que levava ao Rio. Contudo, os planos são abortados antes de ser efetivamente colocados em prática por causa dos delatores, principalmente Joaquim Silvério dos Reis (XXVIII):

(...)
Ai, que o traiçoeiro invejoso
junta às ambições a astúcia.
Vede a pena como enrola
arabescos de volúpia,
entre as palavras sinistras
desta carta de denúncia!
(...)

Segue-se uma devassa completa, prisões, confisco de bens, falsos testemunhos, a morte de Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste Satúrnio, sob condições misteriosas (XLIX), a execução de Tiradentes, antecipada na fala do carcereiro (LII) e explicitada nos romances LVI a LXIII:

(...)
Já lhe vão tirando a vida.
Já tem a vida tirada.
Agora é puro silêncio,
repartido aos quatro ventos,
já sem lembrança de nada. (...)

 Um período como magistrado, Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu, é também preso, julgado e condenado ao exílio em Moçambique (LIV e LV). Lá, longe de sua ex-noiva e agora inconsolada Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília (LXXIII), casa-se com Juliana de Mascarenhas (LXXI).
Os romances finais falam do poeta Alvarenga Peixoto, sua esposa, Bárbara Eliodora, e sua filha, Maria Ifigênia (LXXV a LXXX); o retrato de Marília idosa; lamentos pela calamidade mineira; e a loucura e morte de D. Maria I (LXXXII e LXXXIII). A obra é concluída com a “Fala aos Inconfidentes Mortos”:

E aqui ficamos
todos contritos,
a ouvir na névoa
o desconforme,
submerso curso
dessa torrente
do purgatório...
Quais os que tombam,
em crimes exaustos,
quais os que sobem,
purificados?

Um dos romances mais significativos, o XXIV, relaciona o ato da confecção da bandeira dos inconfidentes com todo o movimento que eles preparavam em Ouro Preto:

(...)
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Virgílio...”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam...”
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).
Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
“Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?”
(Antiguidades de Nîmes
em Vila Rica suspensas!

Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da independência!
Liberdade – essa palavra,
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.


Podemos dividir os fatos que compõem o Romanceiro em três partes ou ciclos: 
a) ciclo do ouro; 
b) ciclo do diamante; 
c) ciclo da liberdade ou inconfidência com sua ascensão e queda. 
Aí parece haver uma gradação proposital: Ouro/diamante/liberdade. 

Como o ouro e o diamante, a liberdade brilhou intensamente nas Minas Gerais, mas como o ouro e o diamante, a liberdade só trouxe desgraças, masmorras e mortes.... 


Podemos dividir os fatos que compõem o Romanceiro em três partes ou ciclos: 

a) ciclo do ouro;
 

b) ciclo do diamante;
 

c) ciclo da liberdade ou inconfidência com sua ascensão e queda.
 

Aí parece haver uma gradação proposital: ouro/diamante/liberdade.
 

Como o ouro e o diamante, a liberdade brilhou intensamente nas Minas Gerais, mas como o ouro e o diamante, a liberdade só trouxe desgraças, masmorras e mortes....
 

a) Ciclo do ouro
 

O cenário colocado para o ciclo do ouro prenuncia também o ciclo da liberdade, no qual "a mão do Alferes de longe acena" como a querer dizer:
 

Adeus! que trabalhar vou para todos!...
 

Mas essa mão que acena à liberdade e ao homem livre será enforcada mais tarde. Por enquanto, vejamos o alvorecer do ouro que vai brilhar intensamente nas Minas Gerais, despertando a cobiça e ganância dos homens e, quem sabe, o sonho de liberdade dos inconfidentes que nasceria também do ouro da terra.
 

Descobre-se o ouro e, por causa dele, o homem vai matando animais, pessoas, florestas e tudo que lhe atravessa o caminho. Desbrava-se a mata. Surgem montanhas douradas de ouro e de cobiça que despertam uma verdadeira alucinação:
 

Selvas, montanhas e rios
 
estão transidos de pasmo.
 
É que avançam, terra adentro,
 
os homens alucinados.
 

(Romance I)
 

E gerações e mais gerações de netos afundariam nesse abismo:
 

Que a sede de ouro é sem cura,
 
e, por ela subjugados,
 
os homens matam-se e morrem,
 
ficam mortos, mas não fartos. (ib .ib)
 

Como o ouro que brota da terra, brotam também "as sinistras rivalidades", ladrões e contrabandistas, - um clima de intranqüilidade:
 

todos pedem ouro e prata,
 
e estendem punhos severos,
 
mas vão sendo fabricadas
 
muitas algemas de ferro.
 

(Romance II)
 

E por amor, pelo ouro, uma donzela é assassinada pela mão de seu pai. O ouro não permitia que a donzela acenasse a enasse a um amor "de condição desigual" o seu lencinho" de sonho e sal"
 

Surge Felipe dos Santos, que assanha a fúria do Conde de Assumar. É morto e esquartejado, mas o herói que tomba no Arraial do Ouro Podre ficará como exemplo perene de força e de coragem para os que virão.
 

O tirano conde haveria de chorar porque quem ri, chora também. O Brasil ainda era criança - um "menino" apenas. Nasceriam outros como Felipe dos Santos:
 

Dorme, meu menino, dorme,
 
- que Deus te ensine a lição
 
dos que sofrerem neste mundo
 
violência e perseguição
 
Morreu Felipe dos Santos;
 
outros, porém, nascerão.
 

(Romance V)
 

Cria-se o quinto do ouro, cobrado a ferro e fogo: a Coroa precisava de ouro. Há logros: D. Rodrigo César e Sebastião Fernandes enviam para a coroa caixotes selados com "grãos de chumbo" em vez de grãos de ouro.
 

Ai, que o Monarca procura
 
os que vão ser castigados.
 

E o "quinto falsificado" se tornaria o décuplo de forcas e degredos para a dourada colônia! Pela madrugada fria, rompe o canto do negro no serviço de catar o ouro, enquanto o patrão dorme e sonha. O negro pena e chora, canta e ri na saudade da serra, na imensidão da terra. E na sua vida escrava, ele erra sem terra, sem serra, sem nada:
 

(Deus do céu, como é possível!
 
penar tanto e não ter nada!)
 

(Romance VII)
 

O ouro lhe tiraria o "t" da terra e o "s" da serra e ele erra cativo, sem liberdade, com os elos de ferro da escravidão...
 

Mas o ouro que brotava da terra não cativara apenas o preto, como Chico, que também já fora rei "lá na banda em que corre o Congo": também os brancos foram atirados naquela lama que alimentava a ganância de reis e rainhas:
 

Hoje, os brancos também, meu povo,
 
são tristes cativos.
 

(Romance VIII)
 

Santa Ifigênia, princesa núbia, protetora dos negros, desce às minas "vira-e-sai", depois de amenizar o sofrimento deles.
 

As pessoas, por causa do ouro, iam-se embrutecendo: movido pelo ódio, um contratador, quase assassinou um ouvidor, dentro de uma igreja, porque este, enamorado, arremessara uma flor a uma donzela.
 
Os filhos do almotacé (inspetor de pesos e medidas), sete crianças, rezam diante de Nossa Senhora da Ajuda. Joaquim José é uma delas.
 

As crianças pedem à Virgem que o salve "do triste destino que vai padecer". Será em vão. A virgem não poderá atendê-los, mesmo sendo crianças. Mais forte do que um pedido de criança é o destino traçado para um homem! Mesmo sendo seis e irmãos do sentenciado!
 

(Lá vai um menino
 
entre seis irmãos.
 
Senhora da Ajuda,
 
pelo vosso nome,
 
estendei-lhe as mãos!)
 

(Romance XII),
 

O pedido agora (entre parênteses) é da poetisa à Virgem. Não será atendida: mais forte do que o pedido de um poeta é o destino traçado para um homem!
 

Mas, por enquanto, reina a bonança: "os tempos são de ouro". A tempestade virá depois, em 1792, com a execução.
 

Antes de chegar a forca, porém, outro metal brilhará intensamente nas Minas Gerais: os diamantes do Tejuco, depois Diamantina.
 

b) Ciclo do diamante
 

Continua a corrida alucinante. Agora é a vez do diamante nas regiões do Serro Frio e do Tejuco, onde vive o contratador João Fernandes, "dono da terra opulenta".
 

Chega às suas terras, com o fim de persegui-lo, o Conde de Valadares, homem enganoso e fingido. Hospeda na casa de João, que lhe abre a casa e o coração das mulatas, menos o de Chica da Silva. Sua riqueza é imensa e o fingido conde suspira de cobiça:
 

Deste tejuco não volto
 
sem ter metade das lavras,
 
metade das lavras de ouro,
 
mais outro tanto das catas;
 
sem meu cofre de diamantes,
 
todos estrelas sem jaça,
 
- que para os nobres do Reino
 
é que este povo trabalha!
 

(Romances XIII)
 

O romance XIV apresenta Chica da Silva no seu império de luxo, resplandecente de ouro e diamante. Comparada à rainha de Sabá, ela tinha mais brilho que Santa Ifigênia, a princesa núbia, em dias de festa:
 

(Coisa igual nunca se viu.
 
Dom João Quinto, rei famoso,
 
não teve mulher assim!)
 

Vendo o conde tão interessado pelo João, Chica cisma nessa falsa amizade e previne a João Fernandes:
 

Hoje, todo o mundo corre,
 
Senhor, atrás de riqueza. (Romance XV)
 

Dito e feito: o conde, traindo a hospedagem de João Fernandes, leva-o preso, como Chica da Silva pressentira.
 

É a ambição do ouro (ou do diamante, que é sempre a mesma coisa) que a todos embriaga e corrói:
 

Maldito o conde, e maldito
 
esse ouro que faz escravos,
 
esse ouro que faz algemas,
 
que levanta densos muros
 
para as grades das cadeias,
 
que arma nas praças as forças,
 
lavra as injustas sentenças,
 
arrasta pelos caminhos
 
vítimas que se esquartejam!
 

(Romance XVII)
 

Os velhos do Tejuco, na sua experiência, pensam com a amargura na "febre que corta o Serro Frio". João Fernandes, que até então era senhor opulento, fora levado num navio "igual a um negro fugido", o que dá margem a esta reflexão da autora:
 

(Que tudo acaba!
 
Quem diz que montanha de
 
ouro não desaba?)
 

(Romance XVIII)
 

Acabara-se o tempo de João Fernandes e de Chica da Silva, cravejada de brilhantes. Mas:
 

Sobre o tempo vem mais tempo.
 
mandam sempre os que são grandes:
 
e é grandeza de ministros
 
roubar hoje como dantes
 
vão-se as minas nos navios...
 
Pela terra despojada,
 
ficam lágrimas e sangue.
 

(Romance XIX)
 

Mas o ouro e o diamante, que brilharam tão intensamente nas Minas Gerais, eram apenas prenúncio de um brilho maior. Um sonho milenar, um ideal de um sol que despertaria - o sol da liberdade que a todos iluminaria e que nem rei nem rainha, por mais despóticos que sejam, podem tirar do homem!
 

Não importa que haja eclipses de vez em quando: o sol sempre volta a brilhar depois de um eclipse...
 

c) Ciclo da liberdade
 

A poesia apresenta o cenário onde vão se desenrolar os fatos: enumeração, sobretudo, dos lugares e fixação na névoa que chega às ruas, move a ilusão de tempo e figuras e que trará, fatalmente, o pranto e a saudade:
 

A névoa que se adensa e vai formando
 
nublados reinos de saudade e pranto.
 

O "país da Arcádia", sediado na Vila Rica de outrora (Ouro Preto), com seus pastores e rebanhos, Nises, Marílias e Glauceste não passou de um ideal na literatura.
 

Pelos céus, nuvens negras de ódio e ambições ameaçam a doutorada terra de Ouro Preto: uma "nuvem de lágrimas" está prestes a desabar sobre "o país da Arcádia" - a "pastoral dourada":
 

O país da Arcádia,
 
súbito, escurece,
 
em nuvem de lágrimas.
 
Acabou-se a alegre
 
pastoral dourada:
 
pelas nuvens baixas,
 
a tormenta cresce.
 

(Romance XX)
 

E a Arcádia serena ficava cada vez mais carregada: agitação, correrias, ódio, ambições, países que se libertam, "a Europa a ferver em guerras". Portugal com uma rainha louca:
 

- um imenso tumulto humano.
 

As idéias fervilhavam as mentes de padres e poetas. Mas, por trás das janelas, ouvidos que escutam...
 

O país da Arcádia estava carregado de "idéias".
 

Um príncipe que morre, filho de D. MariaI, a rainha louca, em 1788, é também uma esperança que morre. Nas exéquias do príncipe, muita agitação. Alguma coisa está sendo tramada - "já ninguém quer ser vassalo" e:
 

A palavra Liberdade
 
vive na boca de todos:
 
quem não a proclama aos gritos,
 
murmura-a em tímido sopro.
 

(Romance XXIII)
 

Com pouco mais surgirá a bandeira da liberdade...
 

"Atrás de portas fechadas", os líderes de "fardas e casacas (= militares, poetas), junto com batinas pretas" discutem e planejam a inconfidência. A bandeira com seu lema é escolhida e há um sobressalto, quando se fala em liberdade:
 

E os seus tristes inventores
 
já são réus - pois se atreveram
 
a falar em Liberdade
 
(que ninguém sabe o que seja),
 
Liberdade - essa palavra
 
que o sonho humano alimenta:
 
que não há ninguém que explique,
 
e ninguém que não entenda!)
 

(Romance XXIV)
 

Por causa dessa palavra - espinha dorsal do homem de todos os tempos - um rio de sangue está iminente: uma carta anônima que se recebeu "fala de rios propínquos / rios de lágrimas e sangue / que vão correr por aqui".
 

E na "semana santa de 1789", enquanto na França a liberdade rompia os grilhões da Bastilha, nas terras douradas de Minas, a mesma idéia se fermentava para ser depois enforcada, na pessoa de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes:
 

Deus, no céu revolto,
 
seu destino escreve.
 
Em baixo, na terra,
 
ninguém o protege;
 
é o talpídeo , o louco,
 
- o animoso Alferes.
 

(Romance XXVII)
 

Mas "no grande espelho do tempo", a poetisa vê também "o impostor caloteiro" Joaquim Silvério :
 

(quem em tremendos labirintos
 
prende os homens indefesos
 
e beija os pés dos ministros!)
 

(Romance XXVIII)
 

No "riso dos tropeiros" está colocado um aspecto de Tiradentes que a tradição confirma (inclusive um lira de Gonzaga), a loucura, pois:
 

falava contra o governo,
 
contra as leis de Portugal.
 

(Romance XXX)
 

Sem dúvida, essa loucura deve ser entendida de outra forma: a audácia de um homem que se levanta, sem força e sem armas, contra um governo despótico e tirânico. É o que parece querer dizer a poetisa, no Romance XXXI:
 

(Pobre daquele que sonha
 
fazer bem - grande ousadia -
 
quando não passa de Alferes
 
de cavalaria!)
 

É certamente por isso que "o povo todo seria", porque o povo nunca ri sem razão...
 
Aliás, neste sentido, é preciso também o depoimento do "cigano que viu chegar o Alferes", quando diz no Romance XXXIII:
 

(Fala e pensa como um vivo,
 
mas deve estar condenado.
 
Tem qualquer coisa no juízo,
 
mas em ser um desvairado.)
 

o Romance XXXIV, confrontando o delator Joaquim Silvério com Judas, a escritora conclui que aquele levou a melhor, pois ele (Judas) encontra remorso / coisa que não te (= a Silvério) acontece.
 

Fechando o romance, entre parênteses, há uma reflexão poética profunda, quando fala da "força de vermes", ou seja, dos delatores, dos maus, enquanto os bons apenas "sonham".
 

(Pelos caminhos do mundo,
 
nenhum destino se perde:
 
há os grandes sonhos dos homens
 
e a surda força dos vermes.)
 

Aliás, é o que ocorre também no romance "do suspiroso Alferes", onde há, igualmente, um lamento profundo sobre o comodismo do homem face à situação que o envolve:
 

(Todos querem liberdade,
 
mas quem por ela trabalha?)
 
(O humano resgate custa
 
pesadas carnificinas!
 
Quem more, para dar vida?
 
Quem quer arriscar seu sangue?)
 

E é exatamente esse comodismo, dos bons que é a força dos maus, dos traidores, dos déspotas da liberdade:
 

Mas os traidores labutam
 
nas funestas oficinas:
 
vão e vêm as sentinelas
 
passam cartas de denúncia...
 

Na "noite escura" de 10 de maio de 1789, prenderam o Tiradentes com seus pensamentos de liberdade. Há um lamento profundo de desespero e dor por estar sozinho na luta pela liberdade:
 

Minas da minha esperança,
 
Minas do meu desespero!
 
Agarram-me os soldados,
 
como qualquer bandoleiro.
 
Vim trabalhar para todos,
 
e abandonado me vejo.
 
Todos tremem. Todos fogem.
 
A quem dediquei meu zelo?
 

(Romance XXXXVII)
 

E o medo e a ansiedade se espalham por toda Minas Gerais. No fim do mesmo maio, prendem os outros suspeitos:
 

Andam as quatro comarcas
 
em grande desassossego:
 
vão soldados, vêm soldados;
 
tremem os brancos e os negros.
 
Se já levaram Gonzaga
 
e Alvarenga, mas Toledo!
 
Se a Cláudio mandam recados
 
para que se esconda a tempo!
 

Outros implicados menores vão sendo presos. Há "conversas indignadas" - há também "testemunha falsa". Há até mesmo um "embuçado" envolto em panos e mistério que pretende salvar o poeta Cláudio Manuel da Costa.
 

Mas todos terão seu fim.
 
O padre Rolim, famoso por suas safadezas, estava na iminência de ser preso. O problema era determinar o seu crime, já que, além da suspeita de inconfidente, era culpado também, segundo o falatório:
 

por ter arrombado a mesa
 
de um juiz, em certa devassa;
 
por extravio de pedras;
 
por causa de uma mulata;
 
por causa de uma donzela;
 
por uma mulher casada.
 

(Romance XLV)
 

Mas o padre, que não era nada bobo, enquanto as autoridades discutiam a sua prisão, "pulando cercas e muros", fugiu, levando consigo os seus sete pecados ou setenta -e sete...
 

Nos "seqüestros" das casas e bens, "tudo é visto e resolvido" pelos executores da lei, havia de tudo, até mesmo:
 

as sugestões perigosas
 
de França e Estados Unidos
 
Mably, Voltaire e outros tantos,
 
que são todos libertinos...
 

(Romance XLVII)
 

Antes de prosseguir no trabalho de dar fim aos inconfidentes, a autora interrompe a narrativa para fazer uma belíssima reflexão na Fala aos Pusilânimes, na qual condena os que não tiveram a coragem, a audácia de acender o pavio da chama da liberdade; os que sonharam e deixaram que seus sonhos fossem pelos espaços infindos, como bolhas etéreas...
 

Mas o fenômeno é eterno e universal - a estirpe dos pusilânimes sempre existiu e existirá na face da terra:
 

- só por serdes os pusilânimes,
 
os da pusilânime estirpe,
 
que atravessa a história do mundo
 
em todas as datas e raças,
 
como veia de sangue impuro
 
queimando as puras primaveras,
 
enfraquecendo o sonho humano
 
quando as auroras desabrocham!
 

E a liberdade que foi traída pela pusilanimidade dos que sonhavam com ela ficará gravada nos "céus eternos" como um eco sombrio que chama ao ajuste de contas e à condenação eterna:
 

O vós, que não sabeis do Inferno,
 
olhai, vinde vê-lo, o seu nome
 
é só - PULSILANIMIDADE.
 

mistério paira sobre o fim do poeta Cláudio, que é também a versão da história. Suicídio? Fuga? Rapto? - As dúvidas parecem justificáveis: Cláudio era secretário do governo e afilhado de João Fernandes. Daí o interesse por livrá-lo da masmorra e do desterro.
 

De qualquer modo paira o mistério:
 

Entre esta porta e esta ponte,
 
fica o mistério parado.
 
Aqui, Glauceste Satúrnio ,
 
morto, ou vivo disfarçado,
 
deixou de existir no mundo
 
em fábula arrebatado.
 

(Romance XLIX)
 

Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu da Marília, também tem fim sombrio na masmorra da Ilha das Cobras, interrompendo, assim, o enxoval de Maria Dorotéia (Marília) de quem era noivo.
 

Depois foi desterrado para as terras da África negra (Moçambique), onde se casa com Juliana Mascarenhas , deixando do outro lado do mar e da vida a pobre e inconsolável Marília a quem celebrara em inúmeras e ardentes liras de amor, em Marília de Dirceu.
 

Enfim, em questões amorosas, o homem é sempre um pombo enigmático...
 

Há dúvidas quanto à sua real participação na Inconfidência como procura demostrar Rodrigues Lapa em estudo a seu respeito. Aliás, o próprio Gonzaga em uma das liras de Marília de Dirceu procura se inocentar junto ao Visconde de Barbacena.
 

Cecília Meireles também deixa transparecer a mesma dúvida, ao indagar:
 

Inocente, culpado?
 
Enganoso? Sincero?
 

(Romance LV)
 

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi enforcado a 21 de abril de 1792, três anos depois de ser preso. Como atestam diversas passagens do Romantismo, era considerado louco por causa das idéias que tinha. Depois de morto, virou herói:
 

Que os heróis chegam à gloria
 
só depois de degolados.
 
Antes, recebem apenas
 
ou compaixão ou desdém.
 

(Romance XLIV)
 

A passos lentos, ele caminha sereno para o cadafalso onde o espera, um tanto aflito, o negro Capitania, que o executará. E diz o mártir:
 

Ò, permita que te beije
 
os pés e as mãos...Nem te importe
 
arrancar-me este vestido...
 
Pois também na cruz, despido
 
morreu quem salva da morte!
 

E o negro Capitania lamenta a sua sorte de carrasco oficial do grande sonho humano - a liberdade:
 

Vede o carrasco ajoelhado,
 
todo em lágrimas lavado,
 
lamentar a sua sorte!
 

(Romance LVIII)
 

Só um carrasco lavou-se em lágrimas! Os outros seriam lavados com o sangue daquele mártir que tombava...
 

O cenário agora era desolador e triste: nada mais restava dos sonhos e ideais pretéritos. Tudo fora destruído pelas mãos dos delatores da vida, porque a vida está na liberdade.
 

Tudo agora estava reduzido a "um chão sem ouro nem diamante". Nada mais brilhava nas terras douradas de Minas Gerais!
 

Também os tiranos tiveram o seu fim.
 

A rainha D. Maria I, que mandara executar os inconfidentes da sua coroa, acaba se tornando prisioneira do seu próprio destino: ela que executava tantos, com masmorras , desterros, forcas, torna-se prisioneira da loucura que é pior que qualquer masmorra, desterro ou morte de forca.
 

O destino agora se voltava contra a grande déspota da liberdade!
 

Ai, que a filha da Marianinha
 
jaz em cárcere verdadeiro,
 
sem grade por onde se aviste
 
esperança, tempo, luzeiro...
 
prisão perpétua, exílio estranho,
 
sem juiz, sentença ou carcereiro...
 
Terras de Angola e Moçambique,
 
mais doce é vosso cativeiro!
 

(Romance LXXIV)
 

Pela "comarca do Rio das Mortes (= S.João Del-Rei), Dona Bárbara Eliodora, "a estrela do norte" do poeta Alvarenga Peixoto, naufragava em lágrimas e mágoas: seu doce Alceu também fora desterrado para as longínquas terras d´África, em Angola (Ambaca).
 

Agora as amenas colinas de outrora, onde o gado pastava, onde as flores sorriam, onde os regatos corriam, onde os pássaros cantavam, eram um montão de ruínas e desolação ante o olhar magoado e amargurado da rica e poética Eliodora.
 

Pela "comarca do Rio das Mortes" também dormia o padre Toledo, "paulista de grande raça / mação, conforme o seu tempo".
 

Pela "comarca do Rio das Mortes" também passara e se fora Maria Ifigênia, fruto primaveril do casal Bárbara - Alvarenga:
 

Vai ver sua mãe demente
 
Vai ver seu pai degredado...
 

(Romance LXXVII)
 

Também Marília se desfigurou pelo tempo e pela Inconfidência. O seu retrato agora é o de uma mulher macerada pela dor:
 

já não pertence mais à terra:
 
é só na morte que está viva
 

Agora, tudo jaz em silêncio: amor, inveja, ódio, inocência, no imenso tempo se estão lavando, declara a poetisa na Fala aos inconfidentes mortos.
 

No horizonte eterno há de ficar sempre o anseio de liberdade, e só o purgatório do tempo está apto às ações vis e nobres dos homens da terra:
 

Quais os que tombam,
 
em crimes exaustos,
 
quais os que sobem