terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"Poemas" e "Senhor Branco ou o Indesejado das gentes"


“POEMAS”  -   MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO nasceu em Lisboa no dia 19 de maio de 1890. Os primeiros anos de sua vida são marcados pela dor causada pela morte da mãe, em 1892, quando ele tinha apenas dois anos. Em 1911 matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, no ano seguinte, transfere-se para Universidade de Paris para dar continuidade ao curso de Direito, que não conseguiu concluir. Ainda em 1912 publica a peça teatral "Amizade" e o volume de novelas "Princípio". Nessa época, começa a corresponder-se com Fernando Pessoa. Nessa correspondência já é refletido o agravamento dos seus problemas emocionais e as ideias de morte e suicídio. Em 1914, além de publicar as obras "Dispersão" e "A confissão de Lúcio", Sá Carneiro intensifica sua correspondência com Fernando Pessoa, a quem envia seus poemas e projetos de obras, revelando crescentes sinais de pessimismo e desespero. Em 1915, como integrante do grupo modernista em Portugal, participa do lançamento da revista "Orpheu". No segundo volume dessa revista publica o poema futurista "Manucure", que, ao lado do poema "Ode triunfal" de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa), provocam impacto e polêmicas nos meios literários. Ainda em 1915 regressa à Paris, onde passa por constantes crises de depressões, que são agravadas por causa das suas dificuldades financeiras. Em 1916, numa carta a Fernando Pessoa, anuncia a sua intenção de suicídio, o que efetivamente ocorre no dia 26 de Abril, num quarto do Hotel Nice, em Paris. A obra de Mário Sá-Carneiro está intimamente relacionada a sua vivência pessoal, ou seja, revela toda a sua inadaptação ao mundo e a constante busca do seu próprio eu. Isso faz com que o poeta mergulhe no seu mundo interior e, diferente de Fernando Pessoa, que se desdobrou em heterônimos, atinja a autodestruição.
Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro revela influências de várias correntes literárias, como o decadentismo, o simbolismo, ou o saudosismo, então em franco declínio; posteriormente, por influência de Pessoa, viria a aderir a correntes de vanguarda, como o interseccionismo, o paulismo ou o futurismo. Nessas pôde exprimir com vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela um certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu «eu» no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.
O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais (era órfão de mãe desde a mais terna puerícia), levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge o retrato de um inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesi de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.
Embora não se afaste da metrificação tradicional (redondilhas, decassílabos, alexandrinos), torna-se singular a sua escrita pelos seus ataques à gramática, e pelos jogos de palavras. Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, numa segunda, claramente niilista, a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.
Por fim, as cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o seu suicídio, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescimento das suas frustrações interiores.
Poemas: Editado por Fernando Cabral Martins, o conjunto de poemas de que faz parte este livro corresponde à voz adulta do poeta, ou seja, as obras escritas após 1911.




O termo decadentismo descreve uma sensibilidade estética que ocorre no fim do século XIX e se contrapõe ao realismo e ao naturalismo. Sua origem refere-se mais diretamente ao modo pejorativo como é designado um grupo de jovens intelectuais franceses que compartilham uma visão pessimista do mundo, acompanhada de uma inclinação estética marcada pelo subjetivismo, pela descoberta do universo inconsciente e pelo gosto das dimensões misteriosas da existência. Os versos do poeta Paul Verlaine indicam como o grupo incorpora positivamente o termo, dando a ele conotação diferente da original: "Je suis l'empire à la fin de la décadence" ["Sou o império no fim da decadência"]. Os escritores e poetas simbolistas dos anos 1880 e 1890 são considerados os primeiros expoentes do decadentismo. O simbolismo, corrente de timbre espiritualista, encontra expressão nas mais variadas artes, pensadas em estreita relação de umas com as outras.
saudosismo Valorização demasiada do passado. Movimento literário essencialmente poético, desenvolvido em Portugal no primeiro quartel do séc. XX. Seu mentor foi Teixeira de Pascoais, segundo o qual a saudade constitui o traço definidor da alma portuguesa
interseccionismo Movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa e que se caracteriza pela interseção no poema de vários níveis simultâneos de realidade: a interior e a exterior, a objetiva e a subjetiva, o sonho e a realidade, o presente e o passado, o eu e o outro, etc. Poema paradigmático desta estética, Chuva Oblíqua exemplifica esta técnica de intercalamento que permite "o desdobramento possível de imagens vindas do exterior ou da nossa consciência, de proveniência visual ou auditiva, de experiências reais ou de sonho, etc., criando-se no poema [...] registos ou séries imagísticas objetivamente diferentes mas devidamente ordenados"
paulismo O paulismo é um estilo literário criado por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro com o Impressões de Crepúsculo que começa com a palavra "Pauis"; sinónimo de pântanos. Este movimento literário prima por ambientes sombrios e de águas escuras e "paradas", nas quais o poeta "não se encontra". Os locais que o poeta descreve estão normalmente associados a ambientes aquáticos.
Futurismo: Os adeptos do movimento rejeitavam o moralismo e o passado, e suas obras baseavam-se fortemente na velocidade e nos desenvolvimentos tecnológicos do final do século XIX. Os primeiros futuristas europeus também exaltavam a guerra e a violência. O Futurismo desenvolveu-se em todas as artes e influenciou diversos artistas que depois fundaram outros movimentos modernistas.

SENHOR BRANCO OU O INDESEJAO DAS GENTES
Paulo Roberto Sodré: Seu último livro, De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas, foi lançado em 1998. 1998; O Senhor Branco ou O Indesejado das Gentes é o seu sexto livro. É professor efetivo do departamento de Letras da Ufes.
O 'eu lírico' dos poemas de Sodré não está voltado para a vida, nem absorto na vida, nem confiante na vida, como os homens do café do poema de Manuel Bandeira (Momento num café). Foram os versos desse poema inclusive que semearam O Senhor Branco... no escritor. "Isso foi mais ou menos em 94. Mas eu só mergulhei mesmo no livro em 2004", diz.
Parênteses: Manuel Bandeira passou a vida inteira acompanhado pela tuberculose. Isto é, a idéia da morte era uma companheira inseparável. Daí o valor e a importância da poesia do recifense para Paul Roberto.
“Nestes páramos de sílabas, darei a ti um rosto, sim, de homem, pois se uma mulher deu-me o que se fez vida, é de sorte que um homem ma recolha.”

Esta apresentação do livro de poesia Senhor branco ou o
indesejado das gentes, de Paulo Roberto Sodré, começa com a
leitura de um de seus versos: “Nenhum texto declara norte ou figo na constelação que o verso investiga.” Ele adverte que não há como um texto esclarecer as referências e frutos de um verso poético; a poesia é uma constelação que não cabe no alinhavo de um texto. Isso porque, de modo geral, o texto pretende, com a certeza de sua análise, investigar o assunto na luz meridiana, sem sombras, da razão. Entretanto se, oposto à claridade da certeza, o que é próprio da poesia é o mistério de sua imensidão, como é possível ler versos com tanta luz?

Ao contrário da pretensão à certeza, um texto que se propõe
a interpretar poesia deve, tal como o verso, investigar a
constelação que se recusa ser observada no meio-dia de um
esclarecimento e, entregue a vastidão dessa investigação,
compreender o que, por sua própria natureza, se oculta. Com tal advertência, abnegamos de, nesta apresentação, esclarecer este livro de poesia. Ao contrário de declarar o norte ou o figo dessa constelação poética, este nosso texto de abertura propõe indícios, apenas acena para o que, por se ocultar, deve ser entrevisto desnorteadamente.

Advertência feita, passamos então ao título do livro: Senhor
branco ou o indesejado das gentes. Imediatamente, salta aos olhos uma ressonância poética com Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Uma filiação, cepa ou estirpe poética?! Sim. Pois, além da consoante concepção da morte como a indesejada das gentes, encontramos neste livro tanto o trabalho formal de um João Cabral, quanto a revelação informal de um Manuel Bandeira; ressoam em seus versos tanto a lira desse como a anti-lira daquele.

Como afirma a promessa do primeiro poema, o livro propõe,
“nestes páramos de sílabas”, dar à morte um rosto; e tal tarefa é confirmada como cumprida no último poema: “Nestas paragens de poemas, dei-te um rosto de homem”. Antes de considerar porque aqui a morte tem um rosto de homem, podemos observar que, em sua estrutura formal, o livro começa com o poema Nestes páramose termina com o Nestas paragens, afirmando e confirmando ser o seu propósito dar um rosto à morte. Páramo é topo, o planalto deserto da abóbada celeste, o ponto mais alto, mais afastado, enorme. Para Paulo Sodré, páramos são as sílabas de suas poesias.Paragens são os lugares de repouso das grandes navegações, aonde o mar encontra praia, porto, parada para descansar. Aqui, as paragens são poemas escritos com páramos, poesias que dão rosto à morte.

Distinto tanto da morte que é mulher ou anjo em Manuel
Bandeira, quanto da morte que é lâmina ou cama em João Cabral, aqui a morte tem um rosto de homem, ela é o senhor branco, belo e castanho, com cabelos cacheados: o morte! Por que? – simples: “pois se uma mulher deu-me o que se fez vida, é de sorte que um homem ma recolha”. Com o propósito de dar rosto ao senhor branco, o livro de Paulo Sodré descreve a morte como um percurso de sombra, que começa com o frescor, passa como um arrepio e acaba com o corte – momentos que constituem respectivamente as
três partes do livro: No frescor da sombra, tudo são questões, dúvidas, pressentimentos e especulações. O fascínio e o medo unidos edificam simultaneamente o totem e o tabu. Morte!? Termo que determina, baile de foices; um átimo que, retirando o nome, separa a voz do silêncio; recesso de silêncio, senhorio de ausência, domínio de esquecimento. A primeira parte do livro, intitulada Percurso de sombra e frescor, apresenta o senhor branco. Com o frio de seu frescor, a sombra arrepia: após todas as dúvidas, a constatação da morte. Não importa como vem, seja por atropelamento, tiro, veneno ou derrame, a morte é sempre certa, está na espreita, por trás da curva, à espera do chão. E quando ela se aproxima, tudo desfalece em reticências. A morte revela a incompletude do que somos, o nosso inacabamento e imperfeição. Nada, ninguém, nenhum; quieto, vazio, vencido – a morte é o não que perfaz a finitude da vida. A segunda parte do livro, intitulada Percurso de sombra e arrepio, faz a constatação de ser o senhor
branco uma partida que abandona tudo como estava.

Por fim, o corte. A confirmação de que a morte irrompe,
rompe e interrompe; de que ela é a ruptura da vida que, deixando tudo na mesma inevitável reticência, revela que somos, no fim, perda. O senhor branco mostra a ausência, o itinerário de nossas vidas vazado, esvaziado em não. Após o frescor e o arrepio da sombra vem o hálito do esquecimento, o corte do aperto de mão com a morte, seu paternal abraço. Tudo se finda nessa concessão inevitável do nada, poeira ou pólvora para fátuo fogo. Neste percurso de sombra, que atravessa o frescor, o arrepio e o corte, a morte ganha um rosto, a face do senhor branco.

Ao fim de cada um desses três momentos, um contraponto;
cada parte do livro é, portanto, composta de um ponto e um
contraponto. Criado na composição polifônica da música medieval, o contraponto consiste em estabelecer um paralelo entre duas linhas melódicas simultâneas que se encontram nos contrastes e dissonâncias. Na poesia de Paulo Sodré, como contraponto à morte, o amor, ou melhor, o erotismo:

Como contraponto ao Percurso de sombra e frescor, Da
abreviatura do não também questiona a finitude, sendo que o
primeiro, a da morte e, o segundo, a do amor. Amor e morte se
confundem num erotismo cheio de dúvidas, ciladas e vacilos.
Solidão, relação, casamento, concessão, união, separação. O
discernimento do sim e do não se obscurece na sombra do talvez, ficando tudo confuso. Bastava dizer que sim, mas disse não antes do tempo. Na primeira parte do livro, como contraponto ao questionamento da morte, encontramos a dúvida do amor.

Na segunda parte, uma caligrafia dos cabelos contrapõe-se
ao arrepio da morte. Em Sob o grifo dos cabelos, o que era arrepio se esvoaça numa orquestra de alaúdes, um madrigal de
Monteverdi. Encontramos cachos de cabelos castanhos espalhados pelos versos, tristeza e doce melancolia. Uma escrita emaranhada e evasiva, cheia de silêncios e saudades.

Na terceira parte, ao Percurso de sombra e corte contrapõe-
se da cor do caqui e do azul, numa explícita referência ao disco
Araçá azul de Caetano Velozo. Embora a frase central, tanto do
disco quanto desse terceiro contraponto, seja “com fé em Deus, eu não vou morrer tão cedo”, há aqui um titubear entre a esperança e a desilusão, que podemos caracterizar como uma espera do desespero. Como contraponto à revelação do corte da morte, da inevitável reticência de nossa vida, o verso marca, desata e vara o desejo, o sonho-segredo do araçá azul, o nome mais belo do medo.

Com fé em Deus não morrerei antes de sentir os dedos de suas
mãos sem anéis, o cheiro dos cachos morenos de seus cabelos.
Mas, ao fim destas canções, como contraposto ao ineludível senhor branco, o indesejado das gentes, a confissão do cansaço em aguardar os passos daquele que nenhuma probabilidade, faça sol, faça noite, faça nuvem, deixara chegar.

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